O MENINO QUE NÃO PENSAVA
"Certa vez, um casal me procurou, preocupado com seu filho de 6 anos. A mãe, com a expressão sofrida falou: "Meu filho não produz pensamentos. Será que ele nunca vai pensar?"
A aparência do menino era normal. De fato, ele não apresentou nenhum problema em seu desenvolvimento até 1 ano e meio de idade. Foi então que os os pais perceberam que o desempenho intelectual do filho começava a regredir. Angustiados, procuraram ajuda de diversos profissionais.
Os anos se passaram e o menino não progredia. Ao contrário, parecia ter paralisado sua inteligência no tempo. Apesar do desenvolvimento físico normal, ele não conseguia expressar qualquer tipo de pensamento. Ele não conseguia agir, brincar, falar, comunicar, como qualquer outra criança da sua idade. Não expressava nem mesmo as suas necessidades básicas como fome, sede, vontade de ir ao banheiro, tomar banho, dormir. Para que sobrevivesse sua mãe tinha de adivinhar suas necessidades. Além de tudo, tinha um comportamento agitadíssimo e incontrolável, segundo seus pais. Onde ia causava algum transtorno e não tinha a menor noção de perigo. Às vezes escapava do controle dos pais e andava pelas ruas sem olhar para os lados.
Medo não fazia parte de sua história. Por que? Ele não arquivara, ao longo da vida, experiências prazerosas ou dolorosas, portanto, não tinha parâmetros para estabelecer critérios de realidade, do que era certo ou errado.
Após ser avaliado por neurologistas e psicólogos chegou-se ao diagnóstico de autismo. Não tinha movimentos repetidos, mas havia se isolado completamente do mundo. Fechara-se dentro de si, não por querer, mas porque não desenvolveu canais de comunicação que somos capazes de produzir.
Como não tinha parâmetros para registrar as informações em seu cérebro, era como se não tivesse memória.
O mais importante naquele momento era estimular sua memória, ensiná-lo a registrar pensamentos e mostrar a ele o que acontecia a seu redor, para que percebesse as emoções e aprendesse a usá-las para começar a se comunicar de alguma forma.
Foi pedido aos pais que elogiassem o menino, inclusive com palmas e gestos quando ele tivesse a mínima reação diante de algum fato e que não o punissem caso o oposto acontecesse, mas expressar tristeza e decepção. O objetivo era fazer com que estes gestos produzissem algumas reações e ele registrasse a carga emocional existente. Despertando o lado emocional ele começaria a produzir pensamentos e criaria vínculos.
Após dois meses ele começou a reagir favoravelmente, olhando diretamente para as pessoas, solicitando o que desejava e após algum tempo começou a frequentar uma escola, no início com dificuldade, precisando de uma mediadora, mas criando vínculos afetivos com o mundo a seu redor.
Ele ainda tem pequenas diferenças intelectuais em relação a outras crianças da sua idade. Algumas podemos considerar positivas: tem menos medo, inibição, é mais criativo e seguro quando realiza alguma atividade. Porque isto aconteceu? Porque na sua memória não foram registrados tensão, medo, indecisão, incertezas e nem preocupação com o que os outros pensariam dele."
Esta pequena história registrada por Augusto Cury e descrita aqui com algumas alterações não pode ser avaliada e nem servir de parâmetro para o tratamento dos diversos sintomas que nossas crianças especiais apresentam. Temos que lembrar sempre que cada pessoa é um ser único, com personalidade própria e com potenciais diferentes e cada um vai reagir de maneira diferente em diferentes situações.
