SÍNDROME DE DOWN –
“VOCÊ ACHA QUE SOU DIFERENTE?”
Atendi uma paciente com Síndrome de
Down e durante o tempo que estivemos juntas, vários diálogos interessantes
foram surgindo. Na época ela tinha 32 anos e morava com a mãe. Lembro
particularmente de um desses diálogos.
Enquanto fazíamos um jogo de memória
ela me perguntou: - Você acha que eu sou diferente? Respondi com outra
pergunta: - Você se acha diferente das outras pessoas? Ela me respondeu: - Uma
amiga da minha mãe estava conversando com ela e disse que eu era portadora da Síndrome
de Down. Eu interrompi o assunto e disse que eu não era portadora de nada. Eu
tinha uma síndrome, que tinha nascido com ela, crescido com ela e ia morrer com
ela, mas nem por isso eu era diferente. Eu faço tudo sozinha: saio para passear
com minha cachorrinha, vou para natação e hidroginástica no horário certo, faço
curso profissionalizante onde aprendo a bordar, costurar e cozinhar e ajudo
minha mãe em casa. A única coisa que ainda não fiz foi ter um namorado, mas já
estou pensando nisso. Ela falou com um
sorriso maravilhoso nos lábios e com sinceridade genuína, uma característica
das pessoas de alma boa e coração abençoado.
Esta lembrança surgiu quando estava
pensando que tema abordaria na próxima postagem do blog. Falar sobre Síndrome
de Down é ser um pouco repetitiva, pois existem vários livros, artigos, blogs
de associações e de pais, sempre com o intuito de mostrar do que são capazes as
crianças, adolescentes e adultos com essa Síndrome.
A Síndrome de Down ou Trissomia do
cromossomo 21 é um distúrbio genético causado pela presença de um cromossomo 21
extra. É caracterizada por uma combinação de diferenças maiores e menores na estrutura
corporal. Está associada a algumas dificuldades de habilidades cognitivas e
desenvolvimento físico. Geralmente é identificada assim que a criança nasce. Vale ressaltar que o desenvolvimento
intelectual e motor vão depender da herança genética dos pais, do estímulo
precoce, de sua aceitação na família, em casa, na escola e na sociedade. Nenhum
bebê é igual ao outro, seja Down ou não.
É o distúrbio genético mais comum,
estimado em 1 a cada 800 ou 1000 nascimentos (média mundial). É um evento
genético natural e universal, estando presente em todas as raças e classes
sociais.
Em diferentes momentos da vida, há
risco de problemas cardíacos, deficiência visual em variados graus, menor tônus
muscular, disfunções da glândula tireóide, otites recorrentes. Um terço das
crianças ao nascer não tem problemas cardíacos, apresentam apenas características
físicas como olhos puxados, boca um pouco menor, língua protusa (língua para
fora). Pode ocorrer também refluxo gastroesofágico e apneia do sono obstrutiva.
A principal providência a ser tomada
pelos pais é tratar o Down como uma criança normal, sem preconceito,
estimulando o mais cedo possível. Fisioterapia, fonoaudiologia e terapia
ocupacional são essenciais. Cursos que valorizem as habilidades individuais de
cada criança também são muito importantes.
Existem alguns mitos sobre a Síndrome
de Down:
·
“Crianças
com Down são mais boazinhas.”
Nem sempre;
muitas são incentivadas a sorrir a abraçar exageradamente, se encaixando nesse
mito.
·
“Elas
parecem mais sinceras.”
Como costumam
ser mais francas, com autocensura menor, não se preocupam com alguns códigos
sociais.
·
“Quem
nasce com Down morrem jovens.”
Hoje,
graças à medicina moderna e maiores estímulos desde muito cedo, 80% passam dos 35
anos e muitos passam dos 50.
·
“Elas
não serão capazes de andar, comer e se vestir sozinhas.” Com os estímulos e
ajuda dos pais, as crianças com Down aprendem as atividades de vida diária e as
realizam com independência.
·
“Homens
e mulheres com Down podem ter filhos.”
As
mulheres costumam ter o aparelho reprodutor apto a terem filhos. Homens, geralmente
são estéreis.
·
“Adolescentes
com Down tem uma sexualidade exacerbada.” Eles gostam de sexo como qualquer
adolescente. Muitas vezes, reprimidos pela sociedade, tendem a falar mais sobre
o assunto.
Claudia Werneck, autora do livro “Você
é Gente”, “Muito Prazer, Eu Existo” e vários artigos, escreveu uma frase que
resume muito bem o sentimento da minha paciente e de várias pessoas – “Normal é ser diferente.”; ou como disse Caetano Veloso – “de perto, ninguém é normal”.
Para concluir, indico um filme muito
bom sobre o tema: “Do luto à luta”, direção de Evaldo Mocarzel. Uma análise das
deficiências e potencialidades da Síndrome de Down.
Até a próxima semana...
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